Abstract
<jats:p>A infância, compreendida como território de inscrição de normas, memórias e disputas, constitui o ponto de partida deste artigo, que problematiza as experiências de uma infância negra, afeminada e dissidente de gênero, mobilizando a escrita autobiográfica como possibilidade de produção de conhecimento e elaboração crítica da memória. Ancorado na perspectiva (auto)biográfica e em interlocução com a noção de encruzilhada (Rufino, 2019), de corpo-território (Miranda, 2020) e da compreensão das margens como lugar de resistência (hooks, 2019), o texto toma o corpo como espaço atravessado por processos de vigilância, regulação e (re)existência. A partir de fotografias do acervo pessoal e de narrativas produzidas pelo próprio autor, analisa-se como família e escola operam como instâncias pedagógicas que disciplinam, corrigem e regulam corpos dissidentes desde a infância, produzindo silenciamentos, estigmatizações e estratégias de adequação às normas sociais. Em contrapartida, evidencia-se que, mesmo atravessadas por diferentes formas de violência, essas experiências também produzem frestas por onde emergem saberes, deslocamentos e possibilidades de invenção de si. Ao revisitar memórias da infância, o artigo evidencia que as violências narradas decorrem de estruturas normativas que organizam hierarquias e desigualdades, deslocando interpretações individualizantes acerca da dissidência de gênero. Defende-se, por fim, que narrar a própria trajetória constitui um gesto epistemológico e político capaz de reinscrever experiências historicamente silenciadas na produção do conhecimento, afirmando a memória como espaço de elaboração crítica e de construção de outros modos de existir.</jats:p>