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Abstract

<jats:p>René Descartes concebeu, no século XVII, uma das frases mais célebres e mais soberbas da história do pensamento ocidental: cogito, ergo sum — penso, logo existo. Nessa formulação, o ato de pensar funda o ser. A razão é a origem, o critério e a garantia de tudo. O sujeito cartesiano é autossuficiente, transparente a si mesmo, senhor de suas operações mentais. Há, nessa imagem, uma confiança quase ilimitada na capacidade humana de conhecer e de decidir com precisão. Fernando Pessoa, quatro séculos depois, ofereceu uma imagem radicalmente diferente. Navegar é preciso, viver não é preciso – frase que o poeta retomou dos antigos navegadores romanos e transformou em divisa existencial. Navegar exige precisão técnica, cálculo, direção. Viver, ao contrário, não é preciso: não é exato, não é controlável, não é redutível a algoritmos ou equações. A vida, e tudo que nela se decide, guarda uma inafastável margem de incerteza, de acaso, de erro. entre essas duas imagens que se situa o problema central enfrentado por este trabalho. Por trás de todas as complexas estruturas jurídicas de organização do capital, dos contratos societários, mecanismos de governança e instrumentos de reestruturação empresarial, há sempre pessoas que pensam e decidem – mas que não são, nem de longe, os sujeitos cartesianos que a teoria econômica clássica Éimaginou. Essa tensão entre racionalidade e incerteza tem um espelho inesperado no jogo de Go, retratado na capa deste livro. Embora a disputa entre os dois jogadores seja essencialmente competitiva, existe uma profunda dimensão cooperativa na forma como as pedras de cada jogador atuam em conjunto. Pedras conectadas formam grupos mais resistentes, e a sobrevivência de um grupo depende da construção coletiva. Mesmo pedras distantes colaboram para criar zonas de influência controle de território, e há situações em que um subgrupo é deliberadamente sacrificado para fortalecer o conjunto maior. Como todas as pedras são iguais, é a disposição coletiva no tabuleiro que determina a força do conjunto - conferindo ao jogo sua extraordinária profundidade estratégica. É precisamente o que a Teoria dos Jogos demonstra, de modo rigoroso e contraintuitivo: mesmo em ambientes de competição e disputa – como o mercado, ? ????peração não apenas pode surgir, mas tende a ser a estratégia dominante em horizontes temporais suficientemente longos. Cooperar não é ingenuidade: é estratégia.</jats:p>

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não pedras mais mesmo preciso

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