Back to Search View Original Cite This Article

Abstract

<jats:p>O presente livro se propõe a oferecer uma leitura aprofundada de um dos temas mais urgentes entre as ciências que se ocupam do trabalho no mundo contemporâneo, qual seja: da relação entre tempo, saúde e organização social do trabalho. Partindo do debate recente — que ganhou a mídia a partir do Movimento Vida Além do Trabalho — sobre a Escala 6x1 e a necessidade de redução da jornada no Brasil, essa obra, busca explorar um outro horizonte da discussão, qual seja, de situar o tempo de trabalho como um elemento central na produção de sofrimento, adoecimento e desigualdades. Mais do que uma variável simplesmente econômica ou jurídica, o tempo aparece aqui como parte da dimensão estruturadora da experiência laboral, sendo, por essa razão, atravessado por questões ligadas a saúde física e mental, a qualidade de vida, as formas de exploração dos trabalhadores e, até mesmo, envolvendo os limites ambientais do atual modelo de desenvolvimento vigente em nosso país. Assim, ao articular diferentes abordagens — que vão da saúde do trabalhador à crítica ecológica — este livro tem como mote compreender por que, no tempo presente, discutir a jornada de trabalho é também discutir os próprios limites sociais, humanos e ambientais do trabalho na contemporaneidade. Dito isto, tem-se que o presente volume é composto por 7 capítulos iniciando com o texto intitulado “Tempo de trabalho: fonte de prazer e realização ou de sofrimento, adoecimento e mortes?” escrito por Ana Claudia Moreira Cardoso. Texto esse que abre o volume com uma reflexão fundamental, qual seja, se é o tempo de trabalho um elemento central na produção de saúde e doença. Para responder a essa questão a autora se propõe a analisar não apenas a duração da jornada, mas também sua distribuição e intensidade, mostrando como essas dimensões se articulam para produzir nos trabalhadores e trabalhadoras grande desgaste físico e psíquico. E, neste sentido, ao mobilizar a noção de riscos psicossociais, o texto acaba por deslocar o foco da responsabilização individual para a organização social do trabalho, evidenciando que o adoecimento é, em grande medida, socialmente produzido. Já o capítulo 2, intitulado “Vivo apenas para trabalhar: os impactos da escala 6x1 na saúde e na vida social de trabalhadoras e trabalhadores”, escrito por Flávia Manuella Uchôa de Oliveira, Clarice Rodrigues Pinheiro, Rafael Macharete, Gabriel Sant'Anna, Mary Zhang e Lucas de Oliveira, parte de uma pesquisa articulada com o movimento “Vida Além do Trabalho”, a partir da qual, busca investigar, de forma empírica, quem são os trabalhadores e trabalhadoras submetidos à Escala 6x1 e, como, essa organização do tempo impacta suas vidas. Suas análises demonstram que a jornada extensa além de afetar diretamente a saúde física e mental do trabalhador, também, incide de modo indireto nas relações familiares, no convívio social e no próprio sentido de viver, dado que, cada vez mais, esses trabalhadores e trabalhadoras tem menos tempo para estar com sua família e ter uma vida além do trabalho. Especial destaque deve se dar a esse texto por seu caráter particularmente importante, qual seja, de aproximar produção acadêmica e mobilização social. No capítulo 3, intitulado “Trabalho que fratura, jornada que adoece: saúde mental e os impactos da Escala 6x1”, Vanessa Silveira de Brito, aprofunda essa discussão ao focar especificamente nos impactos psíquicos das jornadas extensas. Em seu texto, articula as contribuições da Sociologia e da Psicologia do Trabalho para demonstrar como a intensificação do tempo laboral produz fadiga, esgotamento e sofrimento mental. Desde esse ponto de vista, a Escala 6x1 é analisada como sendo uma espécie e/ou tipo específico de dispositivo de controle social que reduz drasticamente o tempo de recuperação de modo que, com isso, no âmbito dos trabalhadores e trabalhadoras compromete-se a possibilidade – ainda que restrita – destes, terem uma vida para além do trabalho. Já no capítulo 4, no texto intitulado “Escala 6x1 e a saúde de trabalhadoras e trabalhadores”, escrito por Monica Simone Pereira Olivar, a partir de evidências sobre a relação entre jornadas extensas e o aumento de doenças, acidentes e sofrimento psíquico, a discussão ganha um enquadramento mais direto no campo da saúde do trabalhador. E, neste sentido, destaca a autora em sua análise que o tempo de trabalho deve ser entendido como um determinante central da saúde do trabalhador – pois gera sofrimento e adoecimento nos trabalhadores e trabalhadoras –, o que, reforça a necessidade de se pensar e levar a cabo políticas públicas e mudanças legislativas que limitem – por força de lei – a exploração do tempo laboral daqueles que não tem, senão, a opção de vender a sua força de trabalho. Já o quinto capítulo apresenta a redução da jornada como uma estratégia concreta de promoção da saúde e da dignidade no trabalho. Neste, Emerson Victor Hugo Costa de Sá e Francisco Péricles Rodrigues Marques de Lima, no seu texto intitulado “Por uma jornada mais humana: impactos da redução da carga horária na saúde laboral”, a partir de estudos e dados empíricos, demonstram como jornadas mais curtas contribuem para diminuir acidentes, reduzir o estresse e melhorar a qualidade de vida. Em tom propositivo, o texto escrito a quatro mãos, reforça a ideia de que a discussão sobre jornada deve ultrapassar o campo econômico e ser tratada como questão de direitos humanos e bem-estar social. No sexto capítulo, Laura Valle Gontijo, por sua vez, desloca o olhar para o trabalho em plataformas digitais, este, um dos setores onde mais se faz presente a precarização do trabalho em nossa sociedade contemporânea. E, assim, em seu texto intitulado “Impactos das longas jornadas de trabalho dos entregadores de alimentos por plataformas digitais em sua saúde física e mental” a autora mostra a realidade dos entregadores de alimentos via plataforma. Os quais, por estarem submetidos a jornadas extremamente longas – e, muitas vezes, sem proteção social – são os que mais têm sofrido os intensos impactos da precarização sob a forma de um crescente registro, neste setor da economia, dos casos de adoecimento físico e psíquico. Grosso modo, pode-se dizer que o grande mérito deste texto reside em trazer para o campo dos estudos do trabalho a realidade dos trabalhadores plataformizados e como no interior deste “novo setor da economia” o tempo de trabalho ganha novos contornos. Ademais, encerrando o volume, temos o texto de Cesar Sanson, intitulado “Trabalhar menos para que a Terra descanse” no qual o autor propõe uma ampliação ainda mais radical do debate ao conectar a redução da jornada às questões ambientais. Em seu texto, o autor argumenta que o modelo de trabalho intensivo está diretamente relacionado à crise ecológica contemporânea de modo que, reduzir o tempo de trabalho de trabalhadores e trabalhadoras pode contribuir para a construção de um modelo mais sustentável de vida, com jornadas menos intensas e mais tempo para a vida além do trabalho. Dito isto, tem-se que a partir do argumento desenvolvido pelo autor o tempo deixa de ser apenas uma questão laboral e relacionada ao tempo de trabalho, mas, torna-se também numa questão planetária que envolve escolhas políticas, econômicas e sociais que incidem diretamente no aumento ou não da poluição, no aquecimento global etc. Em seu conjunto o presente volume mais do que tratar a jornada de trabalho como uma medida quantitativa — número de horas trabalhadas — tem o mérito de colocar em evidência a partir de diversos estudos e pesquisas a forma como o tempo é organizado, distribuído e intensificado e, também, quais os efeitos concretos que essa intensificação do tempo de trabalho tem sobre a saúde, a vida social e as possibilidades de existência dos trabalhadores. Nesse sentido, um dos aspectos mais interessante da obra consiste no modo como ela coloca em evidência o fato que o adoecimento físico e psíquico não pode ser compreendido, simplesmente, como um fenômeno individual. Mas sim, que esse adoecimento é produzido a partir de formas específicas de organização do trabalho, as quais, se mostram marcadas pela intensificação, pela instabilidade e pela captura crescente do tempo de vida. Grosso modo, podemos dizer que a Escala 6x1, recorrente ao longo dos capítulos, funciona ao longo da obra como uma espécie de síntese dessas transformações, ou seja, uma forma aparentemente legal e normalizada de organização do trabalho que, na prática, restringe o descanso, compromete a recuperação do corpo e limita drasticamente o tempo disponível para outras dimensões da vida. Ao incorporar setores e formas de trabalho contemporâneas como é o caso do trabalho em plataformas digitais o presente volume também nos ajuda a perceber que, a partir dessa nova forma de organização do trabalho, a jornada de trabalho em si deixa de ser facilmente delimitável, tornando-se difusa, prolongada e frequentemente invisível. Constatação essa que reforça a ideia de que o controle do tempo de trabalho ainda continua sendo um dos principais mecanismos de exploração, ainda que sob novas formas. Outro elemento relevante que os textos aqui reunidos nos trazem reside no deslocamento do debate da jornada para além do campo estritamente laboral que, ao articular a redução do tempo de trabalho com a saúde do trabalhador traz à tona um problema que ultrapassa as fronteiras do direito do trabalho ou da economia de modo que, a organização social do tempo passa a ser entendida como uma questão deveras civilizatória que envolve decidir quanto, como e para que se trabalha. Enfim, podemos dizer que, ao articular teoria, evidência empírica e reflexão política, a obra se destaca por colocar em evidência que a disputa pelo tempo de trabalho permanece sendo, ainda, um tema deveras polêmico e conflituoso que envolvem escolhas políticas, econômicas e sociais que impactam diretamente o futuro das relações sociais, a saúde coletiva dos trabalhadores e a própria manutenção da vida em nosso planeta. Mauro Meirelles Editor da CirKula Doutor em Antropologia</jats:p>

Show More

Keywords

trabalho tempo como saúde para

Related Articles

PORE

About

Connect