Abstract
<jats:p>A ideia de valorizar os professores pagando salários dignos, como retribuição do relevante trabalho que desempenham na sociedade, é quase consensual. Na prática, esse consenso parece não se materializar. Essa é uma das constatações que Raimundo Nonato Sousa encontrou, ao realizar a pesquisa As Representações Sociais partilhadas por Licenciandos acerca do salário de professor. Essa e outras constatações podem ser verificadas neste livro, que apresenta, de forma objetiva e bastante realista, um trabalho acadêmico desenvolvido durante o período em que o autor cursou o Mestrado em Educação, na Universidade Federal do Piauí (UFPI). O referido pesquisador entrevistou 30 estudantes de vários cursos de licenciatura da UFPI, campus de Teresina, que, na época da realização da pesquisa (em 2012), já haviam iniciado o 3º ano (6 º bloco) de curso. O autor justificou a decisão de entrevistar esse segmento da sociedade (licenciandos), argumentando que são pessoas que estão sendo formadas para exercer, no futuro próximo, a profissão de professor, que, conforme a literatura apresentada, é considerada uma profissão de baixa atratividade, tendo em vista que não se enquadra entre as profissões mais concorridas nas universidades, ou seja, não consegue atrair os melhores alunos do ensino médio. Esse tipo de aluno quando participa dos processos seletivos para ingresso no ensino superior faz opção por curso de maior prestígio social. Ademais, ser professor é estar numa profissão que, embora hierarquizada em nível de status social, é fortemente representada como uma profissão de status inferior. Sobre a referida profissão, recaem diversas representações sociais, as quais são elaboradas com um objetivo prático e variam no tempo e no espaço. Objetivamente, as representações sociais orientam ou induzem as pessoas em suas tomadas de decisões, nesse caso especificamente, influenciam as decisões daqueles licenciandos que partilham ou comungam de uma mesma representação social. Ou seja, elas produzem impacto na expectativa do licenciando em relação a sua futura profissão, especialmente no que diz respeito ao seu interesse pelos estudos, com reflexos positivos ou negativos na formação do futuro professor, conforme prescrevem as representações sociais por ele partilhadas. Assim, os bons alunos do ensino médio geralmente procuram cursos que julgam lhes proporcionar mais vantagem financeira. Dessa forma, tentar entender a opção desses jovens piauienses da Universidade Federal do Piauí pela licenciatura, apesar da baixa atratividade, tomando como referência a teoria das representações sociais e como foco o salário do professor, será de grande importância, não só para ampliar o estado da arte das pesquisas sobre salário do professor, mas também para sensibilizar os gestores e a classe política sobre a histórica luta que trava o professor desde o início do assalariamento do professor público no Brasil, via subsídio literário. As análises realizadas pelo autor a partir das falas dos participantes da pesquisa revelam conteúdos representacionais bastante negativos. “Com medo de ser feliz”, os licenciandos assim classificam a profissão e o salário de professor: baixo; muito baixo; degradante; desprezível; péssimo; o professor ganha mixaria; olha, faça outra coisa, mas não vire professora; Deus me livre de ser professor. É importante destacar que o conteúdo revelado nas entrevistas foi tão inquietante, que chegou a ser aproveitado como trilha sonora do vídeo Por que mais?, realizado pelo autor deste prefácio, o qual pode ser acessado no link: https://www.youtube.com/ channel/UC00beR0b8-5Prwkx9SkdVsQ. O material discursivo coletado, a partir das falas dos participantes da pesquisa, é bastante revelador e apresenta passagens muito contundentes sobre o salário do professor, especialmente pelo fato de serem ditas por estudantes que em breve estarão ocupando o cargo de professor. Portanto, é com esse perfil de estudante das licenciaturas que sairão os responsáveis pela educação e a aprendizagem das próximas gerações. A pesquisa do professor Raimundo Nonato Sousa foi realizada 16 anos após a LDB de 1996 determinar, no Art. 67, que os sistemas de ensino deveriam promover a valorização dos profissionais da educação, dentre outras ações, por meio do estabelecimento de um piso salarial, oqual foi regulamentado em Lei somente em 16 de julho de 2008 (Lei nº11.738, conhecida como Lei do Piso). Apesar de os depoimentos dos licenciandos terem sido gravados 5 anos antes da publicação da Lei do Piso, os efeitos positivos da Lei ainda não haviam sido percebidos nas representações sociais dos licenciandos. Para eles, o salário do professor era muito baixo, porém alguns dos entrevistados vislumbravam um futuro promissor na profissão, atuando como professor universitário. Para a maioria dos entrevistados que acredita que vai trabalhar como professor da educação básica e que, sem perceber, comunga da “profecia autorrealizável”, resta apenas esperar tempos melhores a partir da realização da Meta 17 do Plano Nacional de Educação, publicada em 24/06/2014: “valorizar os(as) profissionais do magistério das redes públicas de educação básica de forma a equiparar seu rendimento médio ao dos(as) demais profissionais com escolaridade equivalente, até o final do sexto ano de vigência deste PNE.” Por fim, é provável que alguns dos licenciandos que participaram da pesquisa já estejam atuando como professores. Caso suas representações sociais não tenham mudado, conforme relatadas neste livro, elas têm tudo para se tornar uma profecia autorrealizável, virando uma crença, nos termos do sociólogo francês Pierre Bourdieu, que inexoravelmente provocará a concretização do que prescrevem as representações sociais realisticamente apresentadas neste excelente livro. Prof. Luís Carlos (prof Orientador)</jats:p>