Abstract
<jats:p>Em A representação da Comuna de Paris nas obras de Gustave Flaubert e Émile Zola, fruto da dissertação de mestrado de Maria Iracema Giannella de Abreu Pereira, defendida no Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP), a autora analisa um dos momentos mais marcantes da história política moderna a partir da óptica de dois importantes romancistas franceses do século XIX. O exame parte de registros epistolares de Flaubert, especificamente 23 cartas escritas pelo autor em 1871, bem como seu romance L'Éducation Sentimentale (A Educação Sentimental); e, do lado de Zola, os romances La Curée (O Regabofe) e L'Assommoir (O abatedouro) e ainda os artigos que Zola escreveu durante a Comuna nos jornais La Cloche e Le Sémaphore de Marseille. Por meio da análise desse material literário e biográfico, aliada a uma contextualização política e social da França na segunda metade do século XIX, Maria Iracema demonstra como são complexas as relações que os dois autores estabeleceram com a Comuna, tanto dentro de suas respectivas obras romanescas como em suas vidas privadas, atravessadas por ideais e experiências que dão matizes novos a suas visões de mundo. Se Flaubert adota uma escrita que notoriamente escarnece o mundo burguês e a reificação da sociedade industrial, suas simpatias tampouco se voltam para ideologias progressistas como a democracia e o socialismo, e sua visão da Comuna parece contrastar com alguns dos ideais vanguardistas que possuía em relação à literatura. A análise de suas cartas se torna especialmente importante na medida em que estabelece diálogo com as ideias contrastantes de George Sand, sua correspondente. Já Zola, um autor comumente retratado como simpático às causas socialistas de sua época, passa a demonstrar preocupação conforme a violência dos communards progride, revelando que sua adesão à Comuna é menos unívoca e simples do que pode parecer a um primeiro olhar. Com este livro, Maria Iracema ajuda a enriquecer a bibliografia brasileira sobre as relações entre Literatura, História e Política e lança novas luzes sobre como a criação literária incorpora ideologias e visões de mundo na sua representação de realidades que não podem ser reduzidas a cenários simplistas e bidimensionais.</jats:p>